domingo, 29 de maio de 2011

George Orwell: um visionário

Falar da genialidade de George Orwell é chover no molhado. Dono de uma escrita direta, controversa, desafiadora e um tanto subversiva, o escritor indiano também apresentou incrível capacidade de, precisamente em sua principal obra, "1984", antever fenômenos híbridos entre a mais crua realidade e o surreal, que, outrora absurdo, passa a ser visto, cada vez mais, nos dias de hoje, como realidade palpável.

É bem verdade que o autor mira o modelo soviético, comunista. É dali que sai a sua inspiração. No entanto, mirando para um lado, acertou, em cheio, no outro. Muito do que se vê na referida obra é absolutamente aplicável para o atual contexto de globalização. Não que isso seja propriedade intrínseca do capitalismo global. Dotado dos atuais dispositivos tecnológicos, um regime comunista ortodoxo e anti-democrático faria exatamente o mesmo. E de maneira mais agressiva ainda.

Ora, os fenômenos vislumbrados por Orwell são, acima de qualquer coisa, referentes à natureza humana, seu modelo de comportamento, e às suas consequências e desdobramentos lógicos. Em diferentes direções, "1984" é atualíssimo.

O caro leitor reparou que, hoje em dia, há câmeras por todos os lados, e não só de segurança, mas de todos os tipos, como em celulares e outros dispositivos tecnológicos de riquíssima variedade, e sob o domínio e a serviço de todo o tipo de intenções, mesmo que privadas? Somos, tanto voluntária quanto involuntariamente, observados praticamente o tempo todo. A privacidade dos indivíduos está sendo progressivamente suprimida. O Grande Irmão está por todos os lados. E ele tudo vê...

E a Polícia do Pensamento, então? Qualquer semelhança com a patrulha do politicamente correto é mera coincidência (?). Não cometam crimideias! Não toquem nos intocáveis!

Isso tudo sem contar o hoje praticamente irrestrito acesso a dados de cada sujeito, expostos para quem quiser ver na "rede", a inconveniência da família e dos sentimentos de amor e afeto entre as pessoas em nome da manutenção de um modelo social, e a volatilidade e diluição da história em si, manipulável pelo avassalador crescimento das comunicações, sua velocidade e dinâmica. Assim como em "1984", graças à necessidade e ao consumo instantâneo de informações, a história torna-se moldável e multifacetada, criando-se uma série de possibilidades de sua construção. É claro que isso não chega a ser de todo o mal, desde que não sirva como uma anti-bússola, uma forma de conhecimento meramente desconstrutor e desorientador do saber humano. Entretanto, o fato é que dentro desta dinâmica, a verdade de hoje é a mentira de amanhã. Ou, mais grave: a verdade de minutos atrás é a mentira de agora. E vice-versa!

É por essas e outras que, como gênio que foi, George Orwell se estabeleceu como homem à frente de seu tempo. Anteviu brilhantemente, na forma de semi-absurdos de organização social e mesmo de natureza existencial, uma série de fenômenos muito notáveis do presente. Orwell "previu" o futuro com incrível precisão. Estamos em 2011. Mas estamos, de certa forma, também, em 1984.

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